#174: Short Takes: Em stablecoin, distribuição vence o design; como as digital wallets estão se transformando em infraestruturas públicas digitais
W FINTECHS NEWSLETTTER #174
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Bem vindo a edição Short Takes e, como o nome sugere, diferente dos deep dives, em edições como essa vou explorar diversos assuntos que, posteriormente, podem se tornar uma edição deep dive.
Short Takes é focado para empreendedores, investidores e operadores que querem insights rápidos.
Stablecoins não são mais sobre reservas, são sobre distribuição.
O mercado de stablecoins atingiu 320 bilhões de dólares em abril de 2026, um crescimento de 41% em relação ao ano anterior. Mas a história mais interessante deste mercado não está no seu tamanho, mas sim em quem consegue capturar market share quando as regras mudaram e surgiram mais opções e concorrência. Um relatório recente do Stablecoin Insider mapeou as top 100 stablecoins por capitalização e chegou a um dado que resume tudo: as cinco primeiras (USDT, USDC, USDS, USDe e USD1) controlam 91,5% de toda a oferta circulante. Centenas de stablecoins foram lançadas nos últimos dois anos. Quase nenhuma conseguiu escalar. A razão principal é que o mercado se expandiu em quantidade de projetos, mas não em poder concentrado.
A concentração não é mais um problema de design ou qualidade de colateral das stablecoins. Ou seja, as stablecoins que fracassam falham pelos mesmos motivos que qualquer cripto-ativo fracassa: design de colateral fraco, falta de liquidez real nos mercados e pressão regulatória que corta o acesso bancário a esses ativos. Essas são questões conhecidas e resolvidas há anos. O que separa o USDC do GUSD, por exemplo, não é a qualidade das reservas. O GUSD tem um A da Bluechip, é 100% colateralizado em Treasury instruments, provavelmente o design mais conservador do mercado todo. Sua capitalização é 43 milhões de dólares. O USDC, com estrutura praticamente idêntica, vale 78 bilhões. A diferença entre eles é que um tem PayPal rodando atrás, Ethereum conectando liquidez, Solana trazendo usuários, e TON oferecendo acesso nativo. O outro tem um design excelente, mas ninguém está usando.
O PYUSD é talvez o exemplo mais claro disso. Lançado em agosto de 2023, levou apenas um ano para cruzar um bilhão de dólares de capitalização. Cresceu 726% em doze meses. Sua inovação técnica é zero. O PYUSD é uma stablecoin comum, sem nada de especial em termos de mecanismo ou colateral. Mas sua diferença principal está no fato de ele ter por trás o PayPal, que traz 400 milhões de usuários que já confiavam na plataforma, anos de reputação em processamento de pagamentos e uma larga rede de comerciantes que aceita pagamentos PayPal em qualquer lugar. O PYUSD não criou um novo mercado, mas colocou uma stablecoin dentro de um ecossistema que já estava funcionando, que já tinha liquidez, que já tinha confiança acumulada.
TON é um caso ainda mais expressivo porque mostra que você não precisa ser gigante em oferta circulante para dominar o crescimento. A rede tem menos stablecoin total do que Ethereum ou Tron, mas o USDT em TON cresce mais rápido que em qualquer outro lugar. A razão principal para isso está no Telegram. Novecentos milhões de usuários. Um usuário manda dinheiro direto do chat, no meio da conversa, como faz com uma mensagem.
Banxa, que não emite stablecoin mas fornece a infraestrutura de acesso fiat-to-cripto em 180 países com licensing em 38 estados americanos, relata que volumes de USDC subiram 400% em 2025. A maior fintech de stablecoins do momento não é nem um issuer nem uma blockchain. Mas sim a rampa que conecta o dinheiro fiat ao digital.
Esse equilíbrio mudou completamente em relação ao que o mercado acreditava em 2022. Naquela época, a vantagem competitiva estava em quem conseguia crescer com custo de capital baixo e sem regulação apertada. Mas essa janela fechou. Com juros altos, regulação apertando e a necessidade de liquidez real para sustentar operações, quem tinha distribuição consolidada ganhou. Qualquer fintech tentando construir stablecoin agora não compete com outras fintechs. Compete com PayPal. Compete com bancos que trazem depósitos em escala. Compete com aplicativos de mensagem que trazem centenas de milhões de usuários diários. Nenhuma fintech sem distribuição pré-existente tá ganhando essa guerra.
Wallets digitais estão se transformando em infraestruturas públicas digitais para identidade, dados e pagamentos.
Um relatório recente do Banco Mundial sobre wallets digitais propõe uma redefinição que parece simples mas muda tudo sobre como a gente pensa em credenciais e identidade. Wallets não são apenas aplicativos de pagamento. Wallets são contêineres criptográficos que convergem identidade portável, compartilhamento de dados controlado pelo usuário, assinatura eletrônica e, cada vez mais, pagamentos dentro de um mesmo ambiente.
Durante décadas, identidade digital, compartilhamento de dados, assinatura eletrônica e pagamentos evoluíram em silos completamente separados, cada um com seus próprios padrões, suas próprias criptografias, suas próprias regras de confiança. Uma pessoa precisava de um app para acessar identidade digital. Outro app diferente para compartilhar documentos. Um terceiro para assinar contratualmente. Um quarto para pagar. Ukraine construiu Diia como um superapp que integrou tudo. Singapore tem SingPass. Brasil tem gov.br. Mas todos esses eram soluções monolíticas, fechadas, proprietárias. Tudo ainda rodava em papel.
O que o Banco Mundial descreve é um paradigma arquiteturalmente diferente. Em vez de um governo construir um superapp monolítico, você tem credenciais que podem ser emitidas por diferentes autoridades e apresentadas a verificadores sem nenhuma integração bilateral. Uma pessoa prova identidade sem revelar data de nascimento. Compõe credenciais de fontes diferentes. Um banco verifica credencial do governo sem nunca ter falado com o governo. A confiança é criptográfica, não burocrática. A arquitetura é modular, não mais monolítica, consequentemente sendo mais interoperável.
Esse modelo muda radicalmente como você constrói infraestrutura pública em escala. No velho modelo, expandir um sistema de identidade significava redesenhar tudo de novo. Governos implementavam suas próprias PKI. Bancos precisavam se integrar bilateralmente com cada governo. Verificadores ficavam presos em silos. Agora, um novo issuer entra no sistema sem que ninguém precise redesenhar nada. Um novo verificador também. A União Europeia de Identidade está até abrindo a porta para que wallets comerciais como Apple Wallet se certifiquem como conformes ao padrão europeu, desde que atendam aos critérios de segurança e privacidade. Não precisa ser governo, mas sim ser confiável.
O Banco Mundial projeta que essa convergência vai se aprofundar nos próximos anos. Apple já integrou IDs móveis em Apple Wallet. Google e Samsung anunciaram suporte similar. Brasil está explorando compatibilidade de gov.br com padrões de wallet europeus. Significa que um cidadão pode ter seus documentos, credenciais e instrumentos de pagamento tudo em um lugar, acessar serviços sem repetir dados a cada plataforma, compartilhar apenas as informações que importam, controlar quem vê o quê. Confiança verificada criptograficamente em vez de por decreto burocrático. É a promessa simples disso tudo: infraestrutura que funciona porque foi projetada para funcionar em escala, não porque foi mandado funcionar.
Saúde e paz,
Walter Pereira
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